Entrevista com o escritor César Obeid

  • Por que escrever para crianças?

Comecei o ofício de escrever quando ainda estudava dramaturgia. A primeira peça teatral por mim escrita já foi destinada ao público infantil. Creio que a infância seja a fase mais rica da vida. De acordo com grande parte das linhas terapêuticas, todas as lembranças boas e os traumas dos primeiros anos de vida refletem diretamente na vida adulta. Assim, não resta dúvidas de que a infância é a fase mais importante na nossa linha do tempo. Se algum adulto quer viver melhor, com mais liberdade em todos os sentidos, precisa olhar para sua infância e adolescência.

A infância não é só bela e lúdica, como muitos ainda insistem em afirmar. É uma fase da vida em que temos muitas privações e as emoções, tanto boas como ruins, são muito intensas.  Não é à toa que a infância é uma verdadeira fonte inesgotável de inspiração para qualquer artista.

Durante muitos anos, “esqueci” minha infância, mesmo que de maneira inconsciente. Por isso que hoje, ao escrever, encontro um caminho para avivar minhas memórias e liberar minhas emoções.

  • Como despertar nas crianças a curiosidade e a vontade de ler?

As escolas fazem o possível, mas com muita timidez, ainda. Dá para fazer muito mais, tornando a literatura viva, apaixonante. Para isso, muito esforço será exigido de todos os envolvidos; pais, alunos, coordenadores e professores. Mas será que estamos dispostos a mudar? O que queremos de verdade? Preencher relatórios e fichas de leitura ou abraçar de vez a literatura, sabendo que isso pode transformar toda a comunidade escolar?

A literatura ainda é algo distante da maior parte das famílias. Quantos pais desligam os seus celulares, ou mesmo deixam de ver um pouco a televisão, para ler com uma criança? Esse movimento deve ser mais intenso na primeira infância, porque, depois, a distração eletrônica tende a ganhar cada vez mais espaço nas casas, e a literatura só é e será boa se “ensinar alguma coisa”. Mas não é essa a função da literatura! Que, aliás, não tem função alguma… Opa! Quer dizer que a literatura não tem nenhuma função? “Função”, no sentido de obrigação, de utilidade, não. Porém, sem nenhuma sombra de dúvida, a literatura pode nos ensinar e mostrar muito mais coisas do que qualquer outro manual ou receita.

Os pais podem ajudar dando o exemplo, ou seja, lendo mais livros literários, como romances, novelas, crônicas, contos, poesia etc. Vale lembrar que não dá para ler e interagir com as redes sociais ao mesmo tempo. Ou é uma coisa, ou é a outra. A concentração é a base fundamental da leitura.

As escolas, por sua vez, podem realizar mais feiras do livro, com a presença dos autores e ilustradores, saraus de leitura e oficinas literárias. Atualmente, em muitas feiras dos livros, a maioria dos livros disponíveis são os de colorir ou de pessoas com visibilidade na mídia.

Em um primeiro momento, os professores também podem trabalhar mais a escrita criativa, mais solta, sem tanta preocupação com a perfeição gramatical. Gosto de pensar que a escrita é uma manifestação da intuição; assim, gostaria de ver professores que acreditassem e apostassem mais nesse impulso da escrita e menos nas regras gramaticais ou ortográficas. Não estou dizendo que não temos de nos preocupar com a forma, mas essa correção pode e deve ser feita depois. A escrita intuitiva precisa de um momento particular, em que não existe o mental. É o coração que precisa falar mais por meio de palavras.

  • O período de alfabetização é o melhor para despertar o interesse pela leitura?

Creio que não. Desde cedo, mesmo com poucos meses de vida, ou até mesmo na barriga da mãe, a criança já pode estar em contato com os livros, com as histórias.       No período de alfabetização, a criança naturalmente se interessa pela leitura, pois aquele novo mundo das letras e das imagens se descortina dia após dia. O difícil é manter o interesse depois dos 7, 8 anos.

  • A leitura de livros nos tablets e celulares também é válida? Ou a magia da leitura se perde nesses suportes??

De minha parte, acho péssima essa ideia, pois, como tablets e celulares têm acesso à internet, a tentação de abrir uma nova aba é muito grande. A tecnologia é fundamental para várias áreas do conhecimento e para as facilidades cotidianas, mas é o maior treino de distração mental que existe. Nunca houve tanta perda de foco e doenças relacionadas na história da humanidade como agora.

Por quanto tempo alguém consegue ficar sem olhar as notificações no celular? É como se nós esperássemos uma salvação virtual a qualquer momento.

Na leitura literária, vamos atrás do que realmente nos interessa, fazemos nosso próprio percurso, formamos nossa opinião, de acordo com nossa vivência e repertório.

  • Quais são os temas de que as crianças mais gostam?

Todos os temas. A criança não é um ser simples, que recebe uma fórmula pronta e está tudo certo. A criança é curiosa, viva e, mesmo com poucos meses de idade, mostra muita sabedoria.

Os temas que mais a interessam são aqueles nos quais as crianças se espelham, os que podem refletir seus sentimentos, suas emoções, medos e alegrias. São os temas com as quais as crianças se identificam.

Livros muito politicamente corretos interessam somente a professores que não querem discutir com pais que desejam proteger seus filhos de “toda a maldade do mundo”. Quer dizer, então, que a criança não tem sentimentos ruins, como raiva, ira, ciúme, inveja? Isso faz parte da natureza humana. Privar a criança de ter contato com um livro que tenha personagens que vivam isso, é privá-la de viver em plenitude. É privá-la de ser criança.

Em minha opinião, leitores, sejam de que idade for, gostam mesmo é de um bom enredo, uma boa trama com páginas e personagens vivas!

 

 

 

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