A água e eu – publicado no blog da Editora Moderna, março de 2019

A água e eu – publicado no blog da Editora Moderna, março de 2019

Conversando com amigos e amigas que compartilham o prazer e o dom da escrita, descubro que cada um tem uma dica ou mesmo algum truque para destravar as ideias. Uns tocam piano, outros comem muito, outros, ainda, correm um pouco para fazer com que os pensamentos se transformem em palavras escritas. Já eu, gosto de pisar na grama e lavar as mãos. Não consigo sentar em frente ao computador sem antes deixar a água escorrer por entre os meus dedos. Acredito que a terra, em contato com os meus pés, organiza minhas ideias, e a água, abraçando as minhas mãos, clareia minha mente.

Se pudesse, confesso que só escreveria meus livros e artigos ao lado de uma cachoeira, mas como isso não é possível, prefiro contar minha profunda relação com a água neste texto. Só um minuto, que vou lavar as mãos e já volto.

César Obeid

César Obeid

Escritor e palestrante

Fui gerado em um útero, espaço maravilhoso cheio de mistérios e água, muita água. Sou da espécie humana, que habita o planeta Terra, que, por sinal, poderia se chamar planeta Água, pois visto do alto, bem de cima mesmo, dá para ver que o nosso planeta é azul.

Nasci no Brasil, o país com a maior disponibilidade de água doce do mundo. Terra das fartas cachoeiras, das belas praias e dos grandes rios. Água, água e água. Nasci na cidade de São Paulo, que, em um passado não muito distante, era conhecida como terra da garoa. Hoje em dia, mais parece terra das tempestades, pois basta uma chuvinha para, a maior cidade do país, parar.

O bairro em que nasci e onde minha mãe mora até hoje chama-se Água Fria, fica na zona norte da capital.  A casa em que passei toda a minha infância fica em uma baixada, o que significa que a rua enche quando cai muita água do céu. Me lembro de ver meu pai correr para tirar o carro da garagem e estacioná-lo na rua ao lado, pois facilmente a água fazia um carro de verdade boiar, feito um simples brinquedo, quando vinha aos montes do céu.

Para quem acredita (eu creio), meu ascendente é em peixes, um signo do elemento água. Dizem que pessoas sob essa ascendência se emocionam demais e vertem água dos olhos por qualquer coisa. Essa parte vou deixar em suspense…

Vazamentos me acompanharam a vida toda. Grandes, médios, pequenos. Pelo telhado, pela torneira, pelos canos, ralos e cantos.

Vazamentos no carro também não faltam em meu currículo. Em todos os carros usados que comprei entrava água, ou por baixo, pelas laterais ou por cima. Lembro bem do primeiro carro zero que tive. Estava feliz da vida com a nova aquisição de quatro rodas, mas logo na primeira chuva forte, o que aconteceu? A água invadiu o lado do passageiro e molhou todo o carpete do assoalho. Fiquei um pouco assustado, claro, mas no fundo sabia que não era uma novidade, mesmo em se tratando de um carro novo.  Muitos me disseram que fui presenteado pelo azar ou que eu deveria reclamar com a montadora, que não fez um bom serviço. Pode até ser, mas prefiro acreditar que a minha íntima relação com a água sempre tem algum importante significado escondido. Consertei o carro e ainda fiquei com ele por alguns anos.

Quando construí a minha casa, em vez de laje, como arquiteta, engenheiro e empreiteiro sugeriram, coloquei forro. Eles disseram que com a laje a casa ficaria mais segura, que a obra custaria menos e que “todo mundo” faz assim. Desobedeci, pois sabia que até na casa recém-construída eu teria algum tipo de vazamento. O pânico tomou conta de mim só pelo fato de imaginar que uma grossa camada de concreto me separaria da água que (com certeza) vazaria do telhado. Me imaginei subindo na laje com aquele cheiro insuportável de mofo, pois o vazamento estaria lá há muito tempo e, só teria percebido quando o estrago fosse irreversível.

Não me arrependo da minha rebeldia. A escolha na instalação do forro foi ótima, pois, de vez em quando, ouço um pingo ou outro vindo do telhado e, com agilidade e sorriso no rosto, me vangloriando pela certeira teimosia, subo para arrumar. Vedo, selo, limpo as calhas para que a água corra para o lugar certo. Afinal, a água é uma coisa maravilhosa, mas caindo na nossa cabeça, de madrugada, traz muito mais do que pesadelos.

Água vira gelo, vira vapor, vira líquido, desvia, se molda para seguir seu caminho. Tem muito a nos ensinar. No campo simbólico, a água é ligada às emoções mais profundas, aos nossos sentimentos. Também é relacionada à energia feminina e à intuição.

Quem mora no deserto pensa em água o tempo todo. Quem não mora, também. Não há para onde escapar; a água faz parte das nossas vidas. Para beber, tomar banho etc.

A mesma água que mata a sede, que refresca, que limpa, que faz o alimento crescer, também faz, quando desce com força, quem não tem nada, perder tudo. Água é água, sempre profunda.

A água está dentro da gente. 60%, 70%? Alguns pesquisadores dizem que até 80% do corpo humano é composto de água.

O envolvimento com a água é tão misterioso que, não raro, foge da nossa compreensão racional. Lembro da antiga prática que até hoje existe, da água benta, usada por diversas tradições religiosas espalhadas pelo mundo. O líder religioso, por meio de orações e, às vezes, de algum ritual, torna-se um instrumento divino para tornar benta a água. Imagino que muitas pessoas aceitem e até gostem de beber uma água que recebeu boas energias. Mas será que o mesmo acontece com um copo de água que ficou perto de duas pessoas que discutiam feio? Quem se animaria a beber um copo de água que esteve perto de palavrões, xingamentos e acusações? Eu mesmo, por mais sedento que estivesse, não beberia.

Um tanto inexplicável, mas é assim que eu vejo a água.

Já criei enredo que se passa no fundo do mar, já fiz personagens tomarem banho de cachoeira, já fiz poemas para a água, já falei de água virtual e do descaso que a sociedade tem para com este bem tão precioso. Definitivamente, é um tema que me acompanha, me fascina e me surpreende, seja na minha vida pessoal ou nos meus livros. E é por isso mesmo, por não compreender racionalmente a água, que eu lavo as minhas mãos, sento em frente ao computador na esperança de que a criatividade, como um rio que sabe qual o caminho a seguir, me guie para que novas histórias e novos poemas surjam, clareando não só a minha mente, mas os corações de milhares e milhares de leitores.

Entrevista com o escritor César Obeid/ 2018

Entrevista com o escritor César Obeid/ 2018

Entrevista com o escritor César Obeid

  • Por que escrever para crianças?

Comecei o ofício de escrever quando ainda estudava dramaturgia. A primeira peça teatral por mim escrita já foi destinada ao público infantil. Creio que a infância seja a fase mais rica da vida. De acordo com grande parte das linhas terapêuticas, todas as lembranças boas e os traumas dos primeiros anos de vida refletem diretamente na vida adulta. Assim, não resta dúvidas de que a infância é a fase mais importante na nossa linha do tempo. Se algum adulto quer viver melhor, com mais liberdade em todos os sentidos, precisa olhar para sua infância e adolescência.

A infância não é só bela e lúdica, como muitos ainda insistem em afirmar. É uma fase da vida em que temos muitas privações e as emoções, tanto boas como ruins, são muito intensas.  Não é à toa que a infância é uma verdadeira fonte inesgotável de inspiração para qualquer artista.

Durante muitos anos, “esqueci” minha infância, mesmo que de maneira inconsciente. Por isso que hoje, ao escrever, encontro um caminho para avivar minhas memórias e liberar minhas emoções.

  • Como despertar nas crianças a curiosidade e a vontade de ler?

As escolas fazem o possível, mas com muita timidez, ainda. Dá para fazer muito mais, tornando a literatura viva, apaixonante. Para isso, muito esforço será exigido de todos os envolvidos; pais, alunos, coordenadores e professores. Mas será que estamos dispostos a mudar? O que queremos de verdade? Preencher relatórios e fichas de leitura ou abraçar de vez a literatura, sabendo que isso pode transformar toda a comunidade escolar?

A literatura ainda é algo distante da maior parte das famílias. Quantos pais desligam os seus celulares, ou mesmo deixam de ver um pouco a televisão, para ler com uma criança? Esse movimento deve ser mais intenso na primeira infância, porque, depois, a distração eletrônica tende a ganhar cada vez mais espaço nas casas, e a literatura só é e será boa se “ensinar alguma coisa”. Mas não é essa a função da literatura! Que, aliás, não tem função alguma… Opa! Quer dizer que a literatura não tem nenhuma função? “Função”, no sentido de obrigação, de utilidade, não. Porém, sem nenhuma sombra de dúvida, a literatura pode nos ensinar e mostrar muito mais coisas do que qualquer outro manual ou receita.

Os pais podem ajudar dando o exemplo, ou seja, lendo mais livros literários, como romances, novelas, crônicas, contos, poesia etc. Vale lembrar que não dá para ler e interagir com as redes sociais ao mesmo tempo. Ou é uma coisa, ou é a outra. A concentração é a base fundamental da leitura.

As escolas, por sua vez, podem realizar mais feiras do livro, com a presença dos autores e ilustradores, saraus de leitura e oficinas literárias. Atualmente, em muitas feiras dos livros, a maioria dos livros disponíveis são os de colorir ou de pessoas com visibilidade na mídia.

Em um primeiro momento, os professores também podem trabalhar mais a escrita criativa, mais solta, sem tanta preocupação com a perfeição gramatical. Gosto de pensar que a escrita é uma manifestação da intuição; assim, gostaria de ver professores que acreditassem e apostassem mais nesse impulso da escrita e menos nas regras gramaticais ou ortográficas. Não estou dizendo que não temos de nos preocupar com a forma, mas essa correção pode e deve ser feita depois. A escrita intuitiva precisa de um momento particular, em que não existe o mental. É o coração que precisa falar mais por meio de palavras.

  • O período de alfabetização é o melhor para despertar o interesse pela leitura?

Creio que não. Desde cedo, mesmo com poucos meses de vida, ou até mesmo na barriga da mãe, a criança já pode estar em contato com os livros, com as histórias.       No período de alfabetização, a criança naturalmente se interessa pela leitura, pois aquele novo mundo das letras e das imagens se descortina dia após dia. O difícil é manter o interesse depois dos 7, 8 anos.

  • A leitura de livros nos tablets e celulares também é válida? Ou a magia da leitura se perde nesses suportes??

De minha parte, acho péssima essa ideia, pois, como tablets e celulares têm acesso à internet, a tentação de abrir uma nova aba é muito grande. A tecnologia é fundamental para várias áreas do conhecimento e para as facilidades cotidianas, mas é o maior treino de distração mental que existe. Nunca houve tanta perda de foco e doenças relacionadas na história da humanidade como agora.

Por quanto tempo alguém consegue ficar sem olhar as notificações no celular? É como se nós esperássemos uma salvação virtual a qualquer momento.

Na leitura literária, vamos atrás do que realmente nos interessa, fazemos nosso próprio percurso, formamos nossa opinião, de acordo com nossa vivência e repertório.

  • Quais são os temas de que as crianças mais gostam?

Todos os temas. A criança não é um ser simples, que recebe uma fórmula pronta e está tudo certo. A criança é curiosa, viva e, mesmo com poucos meses de idade, mostra muita sabedoria.

Os temas que mais a interessam são aqueles nos quais as crianças se espelham, os que podem refletir seus sentimentos, suas emoções, medos e alegrias. São os temas com as quais as crianças se identificam.

Livros muito politicamente corretos interessam somente a professores que não querem discutir com pais que desejam proteger seus filhos de “toda a maldade do mundo”. Quer dizer, então, que a criança não tem sentimentos ruins, como raiva, ira, ciúme, inveja? Isso faz parte da natureza humana. Privar a criança de ter contato com um livro que tenha personagens que vivam isso, é privá-la de viver em plenitude. É privá-la de ser criança.

Em minha opinião, leitores, sejam de que idade for, gostam mesmo é de um bom enredo, uma boa trama com páginas e personagens vivas!